
07 jul ABRAÇA leva a campanha para turma do projeto Adultos no Espectro
A campanha nacional de 2026 da ABRAÇA (Associação Brasileira para Ação pelos Direitos das Pessoas Autistas), ganhou mais um capítulo importante nesta semana. Levamos a discussão para dentro da sala de aula: uma turma de pós-graduação vinculada ao projeto Adultos no Espectro recebeu uma aula/palestra completa sobre o tema “Sou autista e luto pelo fim da violência contra a mulher!”, com três horas de imersão nos quatro eixos que estruturam a campanha.
E o resultado não poderia ter sido melhor: foi uma aula intensa, produtiva e, acima de tudo, necessária.
Eixo por eixo, sem atalhos
A proposta da aula foi não deixar nenhum dos quatro eixos da campanha de fora e ir além do discurso, trazendo dados concretos para embasar cada discussão.
Falamos sobre as diferentes formas de violência que atingem mulheres autistas, física, psicológica, sexual, patrimonial e institucional, e sobre as barreiras que ainda impedem o acesso à denúncia, ao acolhimento e à justiça. Discutimos também por que tantas mulheres autistas seguem invisíveis nas estatísticas oficiais: o diagnóstico tardio, a camuflagem social (o famoso masking), a infantilização e as barreiras de acesso aos serviços de saúde ainda escondem uma realidade que os números por si só não conseguem capturar.
Um dos momentos mais importantes da aula foi a discussão sobre a sobrecarga das mulheres cuidadoras, especialmente mães autistas, sejam mães solo ou principais responsáveis pelo cuidado de outras pessoas com deficiência. Quem cuida também precisa de cuidado, e essa frase, que já é bandeira da nossa campanha, ganhou ainda mais força na sala.
E fechamos com um tema urgente e que compõe o último eixo da campanha: o papel dos homens autistas no enfrentamento ao machismo, e um alerta que não pode ser ignorado, a cooptação de adolescentes autistas por discursos antifeministas que circulam livremente pela internet. Formar homens autistas como aliados dessa luta é, também, uma forma de prevenir a violência antes que ela aconteça.
Não ficamos só no diagnóstico do problema
Um ponto que fez toda a diferença: em cada debate sobre os eixos, não paramos apenas na denúncia das problemáticas. Levantamos, junto com a turma, possíveis caminhos e soluções para questões que atravessam a vida de tantas mulheres autistas, do acolhimento em serviços de saúde a políticas públicas de suporte a cuidadoras, passando por estratégias de educação afetivo-sexual acessíveis e adaptadas à comunicação autista.
Foi uma troca genuína entre teoria, dado e vivência, e é exatamente esse tipo de espaço que a nossa campanha busca criar: um debate público qualificado sobre violência de gênero e deficiência, que produza materiais educativos acessíveis e fortaleça a incidência política em torno do tema.
O que fica desse encontro
Encerramos a aula contentes com os desdobramentos que essa conversa pode gerar. Espaços como esse, dentro de uma pós-graduação, formando profissionais que vão atuar diretamente com a comunidade autista, são fundamentais para que a luta contra a violência de gênero e o enfrentamento ao capacitismo caminhem juntos, e para que mulheres autistas deixem de ser invisíveis nas políticas públicas, nos diagnósticos e nas redes de proteção.
Como diz o nosso manifesto: não existe inclusão real enquanto mulheres continuarem vivendo sob violência, silenciamento e exclusão.
Seguimos em luta por uma sociedade livre da violência de gênero, do capacitismo e da misoginia, e seguimos levando essa conversa para cada vez mais espaços.